O MEU PARAÍSO

 

Coloquei meus pés em terra firme...

Olho em volta... que linda paisagem! Tudo parece perfeito no lugar. Nada que eu possa pensar estar deslocado.

Caminho, aos poucos... decerto ainda existe o lugar chamado “Paraíso”. Decerto ainda posso deitar minha cabeça e descansar.

Sento-me na areia macia e branca... Ao longe, os pássaros fazem revoadas algariadas e barulhentas, no seu cantar intenso e feliz...Mergulham e retomam seu vôo. O mar, antes revolto, calmo em sua eterna atividade, se desmancha em espuma aos meus pés.

Olho para trás... o verde se faz presente... árvores antigas  se destacam de encontro ao azul do céu... ora um verde escuro e forte, ora mais suave, com entonações que se complementam e se fundem, formando um só tom.

No espaço azul, outros pássaros entram na floresta e retornam com a mesma alegria de seus companheiros... A suave brisa, que me toca, faz com que estremeça, num arrepio de frio... Começo a sorrir... o corpo molhado dá a sensação de mais frio do que está... Permito, então, que o sol toque meu corpo para secá-lo e aquecê-lo;

Adormeço sem sentir... o cansaço faz com que eu me entregue àquele lugar como se fosse em minha cama... Penso em estar contigo... Porque eras tu que me falavas daquele lugar... eras tu que me dizias que ele existia...

E esperei que aparecesses por ali... afinal, havia lutado tanto para ali estar... tanto... que nem me passou pela cabeça que poderias me deixar ficar ali e lutar  , sozinha.

Acordei com meu corpo seco, mas o sol estava se pondo... o mar mostrava que estaria mais forte em suas ondas geladas... e o vento era mais frio que antes...

Voltei-me novamente para trás... onde estava o caminho? Não estavas ali, ainda... eras tu que me ensinarias por onde andar... Eu acreditei.

Comecei a caminhar de encontro àquelas árvores... tentando descobrir uma brecha que me levasse para um lugar mais abrigado. E adentrei naquela mata que já estava escura, pois a vegetação não permitia que os últimos raios de luz ali chegassem... Encontrei uma árvore, muito grande, e em seu tronco havia um local para me aconchegar... Ali fiquei. As lágrimas começaram a cair e molhar meu rosto... Senti-me desamparada e traída... senti-me mais fraca que antes... pois não estavas ali, como prometeras...

Os ruídos da noite quase não me deixaram descansar... eu tinha medo... muito medo. Por horas minha cabeça pendia em meu peito... era mais forte que eu aquele torpor.. aquele cansaço e sono... Até que o dia começou a amanhecer..

Sabia que teria que sobreviver ali... sabia que teria que me adaptar às situações que, antes, eu sonhara como paraíso... que, antes, eu sonhara contigo. Levantando, comecei a lutar, mas só... E a buscar... embora o medo, a fraqueza e a tristeza, ainda existissem. E criei meu lugar, criei meu cantinho, onde até hoje, ainda estou...

Às vezes, olho e vejo o Paraíso que falaste. Às vezes, olho e vejo a mata escura que me assustou, um pouco depois que cheguei. Mas ainda aqui estou. E fiz do Paraíso uma realidade... e do medo, um amanhecer.

Aprendi, com mais esta experiência, que devemos passar pelas ondas, sozinhos... que devemos atravessar o oceano, sem esperar encontrar alguém do outro lado. Porque nós mesmos que criamos nosso lugar.. Porque somente nós sabemos viver nosso Paraíso.

Estou olhando o mar.. as ondas batem na praia... a espuma torna a molhar meus pés e brincar com eles de esconde-esconde. Sobre as águas, novamente, vejo as gaivotas a pescar... O sol está forte... sinto calor. Talvez, ainda hoje, banhe meu corpo nesta água límpida... sei que sentirei um arrepio quando o vento bater em meu corpo molhado... mas também sei que o sol, tão intenso neste verão, aquecerá meu corpo, dando um suave tom dourado em minha pele... Olho novamente o mar... estou aqui, só! Sei que não é por muito tempo. Sinto-me feliz e aconchegada pelo local... Quem sabe um dia ainda virás aqui? Tenho certeza, ah como eu tenho, que conhecerás o paraíso que, nem mesmo tu, acreditavas existir.

 

Miriam da Rosa Goularte

12/2004

 


 
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