Digressão pelo mundo do silêncio

Estava eu a conversar com um amigo sobre o valor das palavras, a sutileza de suas colocações, quando percebi que também o silêncio é sutil. É tão forte em seu conteúdo, que nos mostra que o “nada” pode ser o “tudo”.

Entre as várias formas de silêncio, escolhi algumas para me fazer entender...

A primeira é o “Silêncio do Consultório Médico”... sabem aquele silêncio que encontramos quando adentramos num Consultório Médico? Sentimo-nos como “um estranho”, num “lugar estranho”, rodeado por “estranhos” – que por seu turno, também estão se sentindo “estranhos”, vendo-nos como “estranhos”. Desafinação total, música alegre em dia de luto. Aquele silêncio pesado que nos diz que não estamos onde queríamos estar...e que, alguns mais corajosos, logo quebram, para deixar um pouco mais pessoal o ambiente.

Outro que me vem à mente, é o silêncio do “encontro” – aquele silêncio-surpresa, estupefato, quando encontramos o nosso sonho na realidade vivida no momento. (Isto já aconteceu!!! O famoso fenômeno “deja vu”) E o vivenciamos em todas as áreas durante a nossa fugidía e dura existência. Esta clara antagonização entre sonho e realidade se manifesta pelo ato do silêncio.

Temos, também, o “silêncio-surpresa”. Aquela visita não esperada, no final de semana, num horário não estabelecido – nós, prestes a irmos descansar da agitada semana de trabalho... quando escutamos aquele:

- “Cheguei!”

Sorrisos... abraços... E o silêncio é quebrado por gentilezas mútuas.Nada a fazer? Vamos, então, aproveitar as companhias.

O que me dizem do “silêncio-angústia”? Aquele que se coloca, exatamente no tempo entre o pedido de aumento de salário, ao chefe, e a sua resposta? Entre a entrega do Boletim com notas em vermelho e a exclamação dos pais?

Temos o “silêncio-plenitude”. Uma emoção tão profunda, que nos faz ser, por um momento, a pessoa mais poderosa do mundo. Ocorre quando a mãe acaricia, pela primeira vez o rosto do filho, após o parto... Quando temos o nosso “insight” vivencial e/ou espiritual... Quando reconhecemos no outro, o ser amado e amante... Quando alcançamos um objetivo de vida... Silêncio este, que, invariavelmente, se faz acompanhar de pequenas gotículas brilhantes a escapar, teimosas, dos nossos olhos.

Como é bom vivenciar o “silêncio-extasiante”: quando duas bocas se encontram, na ânsia desenfreada de sugar o outro. Na busca e no encontro que nos completam, mas estimulam a mais, cada vez mais....

E o que é a “saudade”, a não ser “o amor em silêncio”? O amor sem resposta...?

Enfim, entre tantos, lembro-me de mais um: é o “silêncio-conformidade”... o silêncio daquele que já perdeu a esperança e a força para lutar. É o silêncio que mais duramente se choca contra nosso peito.

Não poderia finalizar, sem falar num último e mais importante: o “silêncio-sabedoria”. Normalmente, ele chega já no declínio da idade... é aquele que nos diz mais do que gostaríamos de escutar, que nos fala, diretamente, sobre o ato de crescer com dignidade e plenitude. O sábio pouco fala e muito escuta. Pouco interfere, muito observa. Pouco se manifesta, muito estuda. O sábio sabe que é no silêncio que está toda a verdade das palavras, que é no silêncio que encontramos o verdadeiro sentido do momento... que é no silêncio do outro que devemos intuir sua opinião... que é no nosso silêncio que está a nossa vitória.

O silêncio é o significado comum de todas as palavras... elas nada nos dirão se, um dia, eliminarmos o silêncio do vocabulário.

Ah! E creio que devo ficar em “silêncio”... senão, daqui a pouco, receberei um sincero - e merecido – pedido de

- “Silêncio!”

Miriam da Rosa Goularte