Quando a noite desce
É verdade... parece um chavão, mas é a mais pura verdade. Quando a noite desce, ficamos vulneráveis. Para mim, meio artista, com a sensibilidade à flor da pele, a noite dá um certo temor. “Temor do Desconhecido”, que todos temos, mas não de um fato ou acontecimento desconhecido, mas do “nosso” desconhecido. Sim, parece que “as nossas defesas se põem com o sol”. Principalmente se pensarmos em defesas contra a solidão e a depressão. Durante o dia, “enrolamos” nossas dores com atividades múltiplas, jogamos nossa libido em sublimações que nos fazem esquecer de nós mesmos. Ora correndo, ora trabalhando, ora nos alimentando, seguimos na excursão do esquecimento.
Já à noite, quando em casa chegamos, nos encontramos com um muro caído aos nossos pés (as defesas, claro) e desabamos. Desabamos no sentido mais literal da palavra. A nossa estrutura não vence a força do vendaval “realidade latente”. O nosso ego não consegue manter a luminosidade (estapafúrdia) dos mecanismos que nos permitem viver quase que “normalmente”. Os nossos olhos, cansados e acostumados com o ambiente, já não se deslumbram com novidades como as que há pouco estavam na sua frente. A nossa boca emudece... um mutismo fascinante e fascinado. Fascinante pelo ato do silêncio, que permite que muitos pensamentos aflorem a nossa mente e fascinado porque somos intensamente atraídos por nossos sentimentos para nossos sentimentos.
E, na clara intenção de mergulharmos, mesmo que resistentemente, em nossas verdades, debruçando-nos na janela do inconsciente nos entregamos, com força total, ao objetivo de vencermos aquilo que nos incomoda, mas que sabemos fazer parte do nosso “eu”. Assim, com a luz elétrica (meu Deus, quando ela falta, aí sim dizemos adeus ao mundo “real”) dirigimo-nos para buscar defesas externas. Vemos um filme, ligamos para amigos, assistimos ao noticiário, reclamamos do barulho em volta, xingamos a crise mundial, “razão” de nossa intensa irritação. São estas atitudes que nos mantém intactos. São estas trocas que permitem que os “matizes da vida” não nos derrubem por completo.
Bem... hora de ir para a cama... vamos descansar... o dia foi “extremamente” cansativo. Deitamos, meio sem nos darmos conta da batalha vivida anteriormente. E, com a cabeça “em paz”, vamos aos “Braços de Morfeu”!
(Amanhã é outro dia... preciso levantar cedo, ver o sol... ah, o sol... é tão bom!!! E não posso esquecer de ler o jornal , bem cedinho. É um prazer que não abdico... através dele tomo posse e volto a fazer parte do “dia” que começa. Já fortalecida, volto a fazer parte do mundo “real”.)
Miriam da Rosa Goularte



